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sexta-feira, 15 de julho de 2022

As guerras da minha infância

Quando eu era miúdo já havia aquilo que hoje chamamos “bullying”, só que nesse tempo não se chamava assim, nem se ligava muito. Na minha escola havia uma mão cheia de repetentes matulões que mandavam e desmandavam nos mais pequenos.

Entre esses matulões mais fortes e mais velhos destacava-se o “América”, que andava sempre de chapéu à “cowboy” e tinha a mania que podia fazer tudo o que lhe passasse pela cabeça. Se lhe apetecesse aumentar a sacalhada de berlindes e abafadores roubados aos pequenos bastava dizer: “ó puto, passa para cá esse ‘guelas’ de vidro”, e o miúdo pequeno logo lhe estendia a mão trémula com o berlinde pretendido.

Havia um outro a que chamavam “Russo”, talvez por ser de tez clara. Esse impunha-se também aos mais pequenos e, sempre que possível, e aproveitava-se deles para seu próprio bem. Se pedisse a um dos pequenotes uma peça de fruta ganhava-a de certeza, a menos que o alvo em questão fosse um dos protegidos do “América”, porque nesse caso logo o chamava como protetor. De resto era assim no geral: cada matulão tinha a sua corte de putos fracotes que o bajulavam para receber a proteção do respetivo calmeirão.

Havia outros miúdos encorpados mas que davam menos nas vistas. O “China” era forte, mas geralmente não se metia com ninguém. Em vez de roubar aos outros as caricas, era ele mesmo que as fabricava com as cápsulas das garrafas de cerveja cheias de chumbo fundido, o que lhes dava um peso extra único. Nas corridas de caricas as dele nunca eram deitadas para fora da pista pelas dos outros e, bem pelo contrário, as que chocassem com as dele é que saíam borda fora e tinham que recomeçar do início. O “China” trocava as suas preciosas caricas e outras coisas que fabricava por berlindes e peças de fruta, e tinha assim sempre tudo o que queria.

Nessa escola passavam despercebidos outros grandalhões, como o “Índio”, morenão com quem ninguém se queria meter, mas que tinha problemas suficientes na sua vida para que também não se fosse meter com os outros. Como o “Índio”, havia outros rapazolas mais fortes com os quais mesmo os grandalhões mais temidos não queriam problemas, e que assim iam passando quase despercebidos.

Houve muitos episódios que me vêm à memória com estes personagens e, evidentemente com muitos outros, porque aquela escola tinha quase duas centenas de alunos. Num inverno, por exemplo, o “Russo” andou doente. Andava tão definhado, magro e pálido que até metia dó. Ora, está-se mesmo a ver que o “América” se aproveitou da fraqueza do adversário de sempre para o amesquinhar o mais que pode. Os protegidos do “Russo” abandonaram-no e juraram fidelidade ao “América”. Por esse tempo quem não fosse fiel ao todo poderoso da escola tinha que sofrer as represálias desse grandão que agora mandava sozinho. Claro está que os outros calmeirões, como o “China” e o “Índio” não fizeram muitas ondas, tentaram que ninguém se metesse com eles, e deixaram o tempo correr. Eles sentiam que estavam a crescer depressa e que estavam cada vez mais fortes, e por isso o tempo era seguramente seu aliado.

Mas a doença do “Russo” passou, ele ganhou de novo cores e músculo, e reforçou a sua vontade de não andar às ordens de ninguém. Para se tornar mais respeitável especializou-se na pedrada. Era certeiro com o monte de calhaus redondos que trazia sempre na sacola, e arremessava-os sem falhar a uma distância enorme. Por isso era temido entre todos os miúdos da escola. Mas o “América”, muito embora tivesse medo de se meter com o “Russo” por causa das suas pedradas mortíferas, foi arranjando sempre formas de o irritar e prejudicar. Apanhou a jeito um antigo amigo do “Russo”, o “Tótó”, que era um daqueles putos que tinha sido em tempos como um irmão para o “Russo”, mas que se deixava influenciar com facilidade, e incitou-o contra ele. Deu-lhe paus e pedras e até uma navalhinha de ponta aguçada, e foi-lhe dizendo: “não tenhas medo dele, que eu estou aqui e vou-te dando as armas para te safares…” Mas o “Russo” deu pela marosca e quando viu o “Tótó” a preparar-se para o atacar pelas costas, foi-se a ele. Claro que ficaram os dois cheios de negras, muito mais o “Tótó” que não tinha a força de calmeirão do “Russo” nem disparava as suas pedradas certeiras.

Ao ver a bulha, o “América”, ao longe, ia rindo discretamente daquilo que tinha feito ao “Tótó” e ao “Russo”, enquanto os pequenos seguidores, que queriam continuar nas boas graças do “América”, gritavam histericamente impropérios contra o “Russo” numa roda quase perfeita em torno da briga. A todos o “América” ia vendendo paus e pedras, e até navalhinhas de ponta aguçada. De longe o “China” e o “Índio” e alguns outros piscavam o olho ao “Russo”. Estavam certamente a tramar alguma contra o “América” e seus pequenos acólitos, para que deixassem de vez de mandar sozinhos…

Acabei por sair da escola e nunca cheguei a saber como acabou o conflito.

sábado, 21 de maio de 2022

 O novo mundo que aí vem

Há anos que se percebe que o Ocidente vai perdendo progressiva e discretamente a sua hegemonia esmagadora no mundo, mas os contornos, a orientação e a velocidade da mudança que se vem anunciando têm sido muitíssimo vagos e de rumo difícil de determinar. Agora, com a guerra na Ucrânia tudo se acelera, e aos poucos uma nova paisagem começa a surgir como se estivesse encoberta por nevoeiro que se dissipa. Era bom de ver que o domínio da Europa Ocidental primeiro, e do “Mundo Ocidental” mais tarde, sobre todos os povos da humanidade, não poderia eternizar-se, e apesar do ainda colossal poderio económico, tecnológico e militar deste grupo de países, novos poderes e alianças se levantam no horizonte. É bom lembrar o passado para compreender o presente e olhar mais lucidamente o futuro, por isso…

Nos últimos quinhentos anos a África foi quase totalmente conquistada, as suas gentes, que passaram a escravos ou servos, foram tratadas como sub-humanas; alguns dos povos das Américas foram completamente extintos, enquanto outros foram reduzidos à servidão, com as suas terras apropriadas por estrangeiros aos quais tiveram que passar a pagar tributo e vassalagem; a Ásia viu civilizações multimilenares esmagadas pelo colonialismo ou dominadas por “protecionismos” aceites à força da ameaça das armas; os povos da Oceania, mortos uns, dominados outros… A todos impusemos a nossa religião, o nosso modo de viver e de pensar, a nossa forma de exercer o poder, mas cinicamente fomos dizendo de nós para nós mesmos e para quem nos quisesse ouvir, que era pelo seu bem, pela salvação das suas almas, pelo seu desenvolvimento, pela sua liberdade... E os que não se queriam converter ao que nós decidimos que era “o seu bem”, então foram convertidos à força sob pena de destruição e de morte. E espalhamos como bênção ou praga pelo mundo o nosso Deus, o nosso modo de possuir os bens e a terra, de mandar nas pessoas, a nossa necessidade de consumir, a nossa forma de governar. Onde o Ocidente chegou, chegou também a ruína, a escravidão, a morte, a guerra, a humilhação e a miséria, e nada deu de bom aos povos do mundo sem que fosse por interesse ou vantagem para si mesmo. Nós tentamos esquecer e fazer esquecer o passado, mas os povos dominados do mundo não esquecem.

Via-se bem que povos de reinos e impérios seculares ou milenares, muitos dos quais durante todo esse tempo sempre caminharam à frente do Ocidente na tecnologia, na economia, na organização social e estatal, nas artes, no conhecimento, não iriam permitir por muito mais tempo este vexame da dominação. Evidentemente esta relação teria que mudar.

O esmagamento cultural das nações pelo Ocidente foi especialmente desrespeitador, alterando as leis locais, censurando as práticas ancestrais, proibindo as religiões tradicionais, e impondo, sempre impondo, os seus valores, a sua forma de ver o mundo, a sua moral. Esmagou os diferentes povos estrangeiros que encontrou no mundo, mas esmagou igualmente as diferentes culturas das diversas regiões dos seus próprios países. Foi mais que a imposição do padrão da civilização ocidental ao mundo, foi a imposição do padrão de certas elites ocidentais a todos, incluindo às regiões e comunidades minoritárias dos seus próprios países. Mas um tanto por todo o lado, dentro e fora da Europa e do Mundo Ocidental, se começou a notar a retoma das línguas regionais antes proscritas e em decadência, dos valores culturais das gentes, e ressurgiram os perigos dos nacionalismos, motivados em parte pela afronta do esmagamento das tradições ancestrais. E agora por todo o mundo aumenta esse gosto pela tradição, pelo folclore, pelas especialidades locais, pelo ancestral. Claro que a riquíssima multiplicidade cultural da humanidade não iria permitir o esmagamento definitivo das culturas e tradições dos seus povos. Percebia-se que algo teria que mudar…

A globalização económica do mundo, com vantagens reais em alguns aspetos, atingiu o absurdo e a irracionalidade ambiental, guiada exclusivamente pela procura do lucro, mas com desprezo total pelas pessoas, pelo seu bem-estar, pelo seu modo de vida, pelo ambiente da Terra e pelo futuro. E vê-se agora que ela, a globalização, contrariamente ao que se disse, nunca foi pensada nem nunca serviu para irmanar e desenvolver os povos, mas antes para dar vantagem a alguns grupos sobre todos os demais. Também se percebe que nesta matéria as mudanças serão inevitáveis…

O mundo unipolar dominado pelo Ocidente parece ser cada vez mais questionado e estar a entrar em acelerada erosão, e pode dar lugar a um outro mundo, talvez de novo bipolar ou mesmo multipolar. Essa exagerada hegemonia ocidental aproximou as novas potências do planeta pela necessidade de resistir às imposições do Ocidente, da sua moeda exclusiva de algum comércio internacional, e às suas imposições financeiras e morais, e é cimentado pelos anticorpos criados no passado. Países tão díspares como o Brasil, a Índia, ou a China, podem ser o esqueleto dessa nova força, mas mesmo alguns países tradicionalmente rivais e inimigos entre si, como o Paquistão e a Índia ou a Arábia Saudita e o Irão, poderão colaborar em alguns aspetos nesta nova aliança discreta e ainda silenciosa. É claro que este novo poder emergente centrado na Ásia apadrinhará os “proscritos” e sujeitos às “sanções” do Ocidente, como Cuba, a Venezuela ou o Irão, cujo principal crime tem sido não dar os seus recursos de mão-beijada às empresas dos até agora senhores do mundo.

Com este cenário montado, o Ocidente, sempre arrogante mas de vistas curtas, empurra cada vez mais a velha Rússia europeia para os braços da Ásia, promovendo a sua aliança com a China, com a Índia e com o resto do mundo já cansado dos desmandos europeus e americanos. O novo poder emergente vai assim ser reforçado em tecnologia e poder militar, porque já possui gente, história, conhecimento, economia e mercado em abundância. A orientação do caminho já se percebe, falta ainda perceber melhor a velocidade dessa caminhada.

quarta-feira, 26 de março de 2014

CENTENAS DE EGÍPCIOS CONDENADOS À MORTE

529 EGÍPCIOS CONDENADOS À MORTE POR SEREM OPOSITORES AO REGIME MILITAR
Assim a democracia é uma batota.

Quer se goste, quer não a “Irmandade Muçulmana” ganhou as eleições no Egito. Os militares apoiados pelo ocidente não gostaram, e tomaram o poder. Desde que o exército derrubou Mohamed Mursi (o presidente democraticamente eleito), no dia 3 de julho, 1400 de seus partidários morreram pela repressão e outros milhares foram detidos. Agora são CONDENADOS À MORTE 529 militantes da “Irmandade Muçulmana” enquanto outras centenas esperam julgamento.
O que é interessante aqui é verificar como a comunicação social está ao serviço de interesses inconfessáveis. A mesma comunicação social que monta campanhas diárias contra o governo legitimamente eleito na Ucrânia, na Venezuela ou na Síria, deixa passar quase em silêncio total as brutais violações aos direitos humanos que acontecem no Egipto. Não se estranha, porque tem sido esse o rumo da nossa imprensa, rádio e tv. Já com o golpe de estado que os militares argelinos deram após a vitória da FIS na Argélia aconteceu o mesmo silêncio encobridor dos atropelos à legalidade e aos direitos humanos.
Onde estão os paladinos da liberdade e da democracia, que não se insurgem contra o regime militar egípcio? Onde está o bloqueio económico que é usado em outros casos? Já congelaram as contas bancárias dos generais golpistas? Já ameaçaram com ataques militares? Nada! A democracia para os nossos políticos só é sagrada quando lhes é favorável. Caso contrário já não tem qualquer importância. É uma vergonha.
Mas tudo isto vai passando despercebido entre os golos do Ronaldo e os desfiles de moda. Querem fazer de nós parvos, e infelizmente até vão conseguindo. De certa maneira o tempo da censura era bem melhor: as notícias eram censuradas, só se dizia o que o estado deixava, mas isso sabia-se. Agora não. Agora somos levados a pensar que a informação que nos chega é isenta, imparcial e verdadeira, mas é tudo menos isso.

A democracia assim é uma batata, ou melhor, é uma valente batota.