sexta-feira, 2 de outubro de 2020

No tempo em que os animais falavam

Toda a gente sabe que houve um tempo em que os animais falavam. Falavam entre si, e falavam também com os homens, que eram, e ainda são, animais como os outros. O que muita gente não sabe é que nesse tempo as plantas também falavam, e falavam entre elas, mas também falavam com os animais, e portanto também com o homem.

Nesse tempo distante os seres vivos assinaram contratos entre eles, contratos esses que foram feitos para vigorar para sempre, e para serem respeitados pelos descendentes dos que os combinaram nesses dias. Foi assim que algumas flores negociaram com as abelhas o serviço de transporte do pólen, em troca do qual poderiam ficar com algum para si mesmas e ainda com uma ração suplementar de néctar. Por esses dias os carnívoros acordaram caçar sempre que possível os animais doentes e velhos, de forma a permitir a saúde e a reprodução das suas presas e a continuidade das espécies para sempre. Os gaios combinaram com os carvalhos e sobreiros transportar e enterrar algumas das suas sementes durante o outono, mas em troca poderiam comer parte delas, e assim engordar para melhor suportarem o inverno…

Um belo dia um grãozinho de cevada selvagem que um homem ia comer propôs-lhe também um negócio que poderia ser bom para ambos: se o homem garantisse que guardava algumas dessas sementes em lugar seco até ao outono, e nesse tempo remexesse a terra, arrancasse as ervas e as semeasse, a cevada de futuro seria mais gorda e nutritiva, e assim o homem podia fazer pão e alimentar-se dele todo o ano. Mas o homem ficava obrigado a guardar de novo algumas sementes e a reiniciar o ciclo todos os anos. A cevada garantia o seu sucesso como espécie, e o homem também. Os negócios são bons quando dão vantagem a ambas as partes, e aquele era um bom negócio. Por isso assinaram um contrato a valer para sempre.

É claro que quando o trigo e o milho e o arroz e tantas outras plantas selvagens souberam deste contrato, perceberam que havia um animal disposto a trabalhar para garantir a sua sobrevivência e difusão no mundo, e que em troca apenas queria alimentar-se de algumas das suas sementes, foram também ter com o homem e assinaram contratos semelhantes.

Mas na natureza nesse tempo não havia segredos, e alguns animais viram na relação com os homens uma possibilidade interessante de garantir o futuro das suas espécies. Um dia uma cabra selvagem, fartinha de ser perseguida por ursos, devorada por lobos ainda em vida, de morrer de frio em dias de chuva e de fome em épocas de seca, foi ter com o homem e também negociou um contrato parecido: o homem podia matar os mais velhos, parte das crias e mesmo usar o leite que elas tivessem a mais, mas em contrapartida defendia-as das feras selvagens, construía abrigos para as poupar à dureza das intempéries, recolhia e armazenava forragens para ela, e no fim de contas permitia que tivessem uma boa vida e descendência garantida.

Mais tarde vieram outros animais falar com o homem, uns oferecendo-se para colaborar no transporte dos seus haveres, outros para ajudar na caça e na defesa, para guardar os celeiros dos ratos… e tudo isto em troca da segurança, alimentação, proteção contra predadores e dureza do clima, e garantia de perpetuação das respetivas espécies. Como aconteceu em outros contratos celebrados entre seres vivos, os que foram feitos com o homem asseguravam a expansão e o sucesso reprodutivo dos envolvidos, que é afinal o objetivo último de todas as espécies.

Todos estes contratos, antigos e recentes, foram feitos aos milhares entre os nossos antepassados, as plantas, e os animais, e dão-nos ainda hoje o direito de usar os recursos da natureza, mas também a obrigação de respeitar e proteger os seres vivos que connosco partilham o planeta.

Sem esses contratos de ajuda mútua a abelha morreria ao lado da flor sem néctar, e esta acabaria por desaparecer também sem deixar descendência por não ser polinizada. O homem morreria de fome sem a cevada e o mais que semeia nas terras arroteadas, mas as plantas cultivadas desapareceriam em pouco tempo, e o mesmo sucederia aos animais domésticos e mesmo a muitos dos selvagens.

Muitos homens já não falam a língua da natureza e também já esqueceram os contratos antigos, e por isso não sabem o que devem pensar sobre a nossa relação com o mundo vivo: uns julgam que o homem é senhor universal da criação que só tem direitos e não tem obrigações na sua relação com a natureza; outros acham que o ser humano só tem obrigações para os animais e plantas, não tem direitos nenhuns, e que é um ser maldito que deveria ser banido da Terra. Parece que todos esquecem que os contratos que estabelecemos com animais e plantas contêm direitos e deveres para todas as partes, e se forem cumpridos de boa-fé conforme foram assinados no início dos tempos será garantida a sobrevivência e a qualidade de vida para todos.

Por isso é melhor que recordemos os contratos que os nossos antepassados assinaram com os outros animais e plantas, e que são semelhantes a tantos outros celebrados entre as plantas e entre os animais que povoam o planeta. Todos eles conferem vantagens, mas também criam obrigações para todos os envolvidos.

E, por favor, voltem a escutar a natureza e tentem entender o que ela diz, porque me parece que os animais e as plantas ainda falam, só que nós por vezes já não temos tempo ou sabedoria para os escutar!

 

Publicado no Jornal Sudoeste em setembro de 2020

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018


Pensamento aprisionado

Tic-tic, tic-tic, tic-tic, lá vinha a velha professora de História, que para nós, miúdos ainda mal adolescentes, de velha que era quase se confundia com a própria História. O tic-tic era dos saltos altos, finos como agulhas espetadas nos sapatos vermelhos que condiziam com os lábios berrantes e desenhados sobre camadas de creme espalhadas nas faces.
Os meninos esperavam-na encostados à parede, em fila de dois, por ordem numérica. Entravam na sala em silêncio, e permaneciam de pé junto à carteira até que, sobre o estrado, do alto dos seus saltos altos, viesse a severa e altiva ordem para sentar. Depois, sempre sem mais ruído que o de virar as folhas do caderno, escreviam no topo de uma página em branco a sequência sagrada e imutável do início da aula: primeiro, do lado esquerdo, o número da lição; na linha abaixo, à direita, vinha a data; descendo mais uma linha, bem ao centro, escrevia-se “sumário”. Tudo escrito a verde e sublinhado com traço duplo a vermelho. Quanto ao sumário em si mesmo, era ele também guardado num retângulo da mesma cor vermelha do batom e dos sapatos da professora. Tudo feito a régua e esquadro, com método e sisudez. Era o início de um ritual que já nesse tempo eu achava arcaico. Mas este era apenas o início…
De costas para o quadro escrevia, escrevia, escrevia… e os meninos copiavam, copiavam, copiavam… Depois de tudo copiado, de régua e caneta vermelha em punho, cercavam todas aquelas frases transcritas do quadro para o caderninho com traços duplos e igualmente vermelhos. Fazia-se assim desse texto o saber. E o saber ficava trancado numa caixa pelos riscos vermelhos como barras de ferro de uma prisão solitária: de lá nada saía; lá nada podia entrar.
Um dia qualquer vinha um teste, e os meninos repetiam o que professora tinha escrito no quadro, e que eles tinham copiado para o seu caderninho diário. E quem sabe, alguns daqueles meninos seriam mais tarde professores. E então escreveriam no quadro os mesmos textos que os meninos desse novo tempo haveriam de copiar para os seus caderninhos diários.
Alguns desses meninos ficaram com a alma para sempre aprisionada dentro daquelas caixas trancados pelas barras paralelas e vermelhas, feitas com precisão e método, como prisão para prender o pensamento. Muitos ainda hoje, já velhos, continuam sem conseguir atravessar as paredes gradeadas das caixas do pensamento. E não o conseguem já, tanto por não querer como por não poder. São gente de alma escrava e com medo de ser livre, que as barras vermelhas da escola tolheram para sempre.
Ela chamava-se Arlete. Era a professora, e também ela era escrava, escravizada em menina por umas quaisquer barras que lhe amarraram as asas e lhe proibiram o pensamento de voar alto e ver de mais longe. Ficou assim, incapaz da dúvida, incapaz da pesquisa para além do que conhecido e consagrado, incapaz da confrontação de ideias, como se o pensamento para sempre ficasse menino, e que para sossego do espírito necessitasse em absoluto de verdades sagradas e imutáveis. E era assim que ela queria o mundo, parado no pasmo das verdades inquestionáveis, como em adoração permanente e tranquila ao conhecimento miles de vezes repetido. Pobre Arlete, arrogante face aos meninos indefesos, mas de espírito confrangedoramente pobre, como quase sempre acontece com os arrogantes.  

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Os cretinos
Será que ainda não compreenderam que continuando a ter uma floresta dominada por pinheiro bravo e eucalipto vamos continuar a ter o inferno dos incêndios? Serão realmente cretinos, ou será a ganância que os enlouquece?
Outros cretinos são os jornalistas que em vez de se perguntarem por que motvo o país arde, perguntam à ministra se se vai demitir. Alguém pensa que se o ministro fosse outro o país ardia menos?
O acto ´que parece que ninguém tem realmene coragem para incomodar os DDT (donos disto tudo) da floresta, que são as celuloses. É claro que muitos que já foram ministos e secretários de estado também já estiveram nas administrações de empresas desse setor... se calhar é por isso que as culpas são ora do tempo, ora dos bobeiros, ora da ministra... mas não da floresta que temos e dos que a querem assim.
Cretinos!

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

DECLARAÇÃO DE VOTO

Dei-vos o meu voto muitas vezes, julgando que, de uma maneira ou de outra, queriam o bem do meu povo. Vejo agora claramente que os partidos que nos têm governado, muito longe da pureza inicial dos militantes por convicção, foram tomados por bandos de oportunistas que vivem numa teia de interesses obscuros de favorecimento de grupos privados e amigos, onde o interesse geral do meu povo já nada conta. Cansei-me das mentiras, dos deputados que eu elejo com o meu voto, mas que obedecem às cúpulas dos partidos, da corrupção impune…

Não votarei mais nestes partidos tradicionais que nos têm governado. Tiveram 40 anos para mostrar o seu valor, e foram uma decepção completa. Não sei ainda onde votar, mas neles já só os muito parvos é que podem votar. Votarei talvez num pequeno partido qualquer. Pode ser que tenha gente séria. De resto só são pequenos se eu e os outros como eu (que julgo serem muitos), continuarmos a ser tolos e a votar nos que nos têm enganado.

Um dia, se os homens e mulheres sérios voltarem a dominar estes partidos tradicionais, poderei voltar a votar neles. Mas primeiro terão que correr com tudo o que é aldrabão e oportunista das suas fileiras…

Chega de fazerem de mim parvo! 

segunda-feira, 15 de junho de 2015

O PARADOXO DO DIREITO NATURAL À FELICIDADE

Tem-se vindo a consolidar na Europa a convicção de que todo o cidadão ao nascer deve ter a felicidade como direito garantido. O assunto combina bem com uma certa ideologia que desresponsabiliza os jovens a partir da mais tenra idade, dando-lhe desmedidamente mais direitos que deveres. Podendo parecer uma questão meramente teórica e com pouco interesse para a vida quotidiana de cada um de nós, ela é, bem pelo contrário, de grande interesse prático e atualidade, dado que é nessa forma de pensar que são ancorados inúmeros comportamentos e normas sociais e legais. Vou apenas centrar a questão no conceito de “direito natural à felicidade” como consequência das condições de vida, já que penso que é pela sua própria natureza inatingível.
1 - As condições que proporcionam a felicidade, e que podem ser objeto de intervenção ou regulamentação, são essencialmente materiais e sociais (donde se excluem as de carácter afetivo, religioso e outras), e que podem ser asseguradas ao indivíduo através das ações da sociedade e de suas organizações (assumindo aqui o Estado um papel preponderante).
2 – A felicidade é evidentemente um conceito difuso e algo subjetivo, mas no caso que aqui trato resulta sobretudo das situações em que o indivíduo consegue obter algo que desejou, e que tomou como sendo de obtenção não garantida.
3 – Quando, como consequência lógica do “direito natural à felicidade”, se oferecem indiscriminadamente a todos os cidadãos as condições materiais e sociais necessárias e suficientes para a sua obtenção, essas condições perdem a natureza de “desejo satisfeito”, e logo perdem a capacidade de gerar felicidade.
Portanto podemos perceber que existe um paradoxo neste assegurar do “direito à felicidade”, e que resulta precisamente da sua natureza: a “felicidade” só existe de forma mais ou menos efémera como consequência da obtenção de algo difícil de obter. Portanto tudo o que é oferecido sistemática e universalmente perde a capacidade de gerar felicidade.
É evidente que esta ideia geral tem inúmeras consequências práticas ao mesmo tempo que permite compreender fenómenos aparentemente estranhos. Por exemplo, existem sérios problemas de depressão e situações de suicídio em países que garantem aos seus cidadãos boas condições de vida, e logo onde se esperaria encontrar povos com elevados níveis de felicidade. Parece que, tal como o nosso sistema imunitário “enlouquece” quando vivemos em ambientes estéreis e o nosso corpo não recebe qualquer tipo de agressão do exterior, também o nosso espírito perde a energia e o estímulo para a vida quando tudo corre “demasiado bem durante demasiado tempo”. 
Repensemos por isto a forma como temos vindo a educar os nossos filhos. Criamos para eles um mundo de direitos sem deveres, onde tudo lhes é oferecido sem que para isso tenham que despender o mínimo esforço. E, surpresa ou talvez não, não são mais felizes por isso. Tudo o que a vida lhes trás de bom (e é geralmente muito) é por eles desvalorizado e indiferente; as pequenas contrariedades com que têm que se confrontar são vistas como dramas geradores de profunda infelicidade, e quantas vezes de séria depressão.
 A felicidade é afinal um bem pelo qual tem que necessariamente se lutar, mas que não pode ser nem inatingível nem oferecida graciosamente.

Pensem nisto.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

PENSAMENTO DO DIA DE HOJE

Somos feitos daquilo que comemos.

Sim, literalmente, todo o nosso corpo é constituído pela matéria que fomos comendo ao longo da vida. Assim, depois de devidamente processado, somos o pedaço de maçã, mais a côdea de pão e o naco de carne… tudo amalgamado em novas formas e funções, mas ainda assim somos feitos daquilo que comemos.

Também aquilo que sabemos, a forma como pensamos, e as coisas que sentimos, são pedaços de saber que de uma maneira ou de outra fomos adquirindo ao longo a vida. Tal como acontece com a matéria, também nas coisas do espírito somos feitos daquilo que os sentidos nos revelaram, mas fundamentalmente daquilo que os outros partilharam connosco.


Por isso, ser professor é de algum modo semear nos outros partes de nós mesmos, replicando assim o que já outros depositaram em nós, no ciclo interminável que é a cultura. 

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015